Livros não mudam o mundo

“Mas é a mais pura verdade, Hellen. Acho que você não conheceu o Olavo e a Dora, mas eles me deram um livro com uma dedicatória que foi valiosíssima para mim. Ela dizia:  “Não somos apenas as nossas circunstâncias, somos também nossa essência.” Acontece que, na época que me deram aquele livro, eu já tinha me esquecido da minha essência. Ela parecia estar perdida.  Ocasionalmente, eu podia percebê-la. Parecia que ela estava presa em algum lugar no passado. E, naqueles momentos, eu ouvia os seus sussurros: “Estou aqui! Lute para continuar a existir do jeito que você é.” Mas parecia também que havia uma outra essência presente em mim, uma que era dona da mesma astúcia da serpente no ouroboro. Ela gritava dentro de mim: “Seja sábia, adapte-se às mudanças. Você não pode ser uma boba para sempre! Pare com estas utopias.” Hellen, o duelo entre essas duas essências pareceu uma luta sem tréguas e foram meus amigos que me ajudaram a vencer esse enorme desafio, você bem sabe.
Ainda me lembro daquele dia maravilhoso, quando li aquela dedicatória. Aquelas palavras, assim como tantas outras que eu ouvia dos meus amigos, tinham o poder de me oferecer colo. Minha essência voltou a moldar a minha carne e meu espírito! A velha essência que me refletia inteira; essência cheia de valores positivos e de tantos outros que ainda necessitavam de ajuste, mas que eram assumidos, mesmo que temperamentalmente. Ainda me recordo com clareza, também, que foi num determinado momento, entre a leitura daquele livro e o cuidar do meu jardim, que minha real essência me atingiu de cheio! Eu plantava os bulbos de tulipas, de narcisos e tentava entender o processo de nascimento daquelas flores lindas, que necessitam do inverno para florir na primavera. Naquele exato momento, eu me senti como havia muito tempo não sentia. Que bom foi poder estar de volta, de volta a mim mesma! Eu tinha vindo ao Brasil, e estava em paz. O frescor das lembranças daquelas seis semanas ainda estava embalando meu coração. Como passei a me sentir riquíssima com a família de amigos que eu tinha conquistado ao longo dos anos! Amigos do trabalho, de farra, dos momentos difíceis, de todas as horas. Amigos! Literalmente, a família que nos vem de presente como extensão do que somos!
Hellen, meus amigos nunca desistiram de mim. Na verdade, naquele momento, entendi que, por um triste erro de percurso, eu é que tinha desistido de mim mesma e como consequência, perdi a minha essência, fiquei crítica, feia, descoordenada, com minha alma doente. Minha querida, eu fui salva pelo frescor das minhas amizades! Não digo que fizeram algo em especial, não. Foram apenas vocês mesmos: maravilhosos, íntegros, brincalhões, sérios e conselheiros. Foram naturais na vontade de escutar o que eu tinha para dizer, e falaram de vocês mesmos. Muitas vezes, enquanto eu conversava com você, que nunca deixou de me chamar de flor, eu, secretamente, sentia-me envergonhada. Meus amigos continuavam a achar que eu era uma boa amiga, alguém que oferecia motivos para ser amada e admirada, ser querida por perto. Todos expressavam a dor da saudades, por não terem a minha presença. Eu mesma sentia vontade de fugir de mim. Graças aos bons fluidos, às boas energias que cercam cada um dos meus amigos, fui ressignificando o meu desconforto, fui voltando a ser a amiga que admiravam tanto.
Aos poucos, fui descobrindo que a couraça feia que me envolvia, na verdade, estava malgrudada na minha pele e não me pertencia. Aquela não era eu. A delícia de revalidar as minhas amizades foi um frescor que, de tão úmido, me deu forças para desgrudar, definitivamente, daquela horrorosa couraça. Minha irmã, tudo isso me foi ensinado por meus queridos amigos! Reaprendi a minha essência com vocês. Meus amigos me mostraram que eu não era uma flor seca, quase que caída do pé, pela frequente ausência de calor humano a que eu estava exposta no solo holandês. Eles me mostraram que eu continuava a ser uma bela flor, e que o meu destino era exalar o meu perfume!
Foi assim que voltei, aos poucos, a olhar o meu reflexo no espelho, e a dizer para mim mesma: “Bom-dia, flor do dia!” Foi assim, que voltei a redescobrir a alegria de ser dona da ímpar originalidade de minhas cores. Foi assim que voltei a entender que eu não precisava ser somente as minhas circunstâncias. Podia também ser a minha essência. Que mesmo com os meus espinhos, ainda assim eu era uma flor! Foi maravilhoso ter reaprendido isso com meus amigos, com você, com minha raiz verde-amarela!”
[trechos do livro Mevrouw Jane, de Josane Mary)

“Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Livros só mudam as pessoas.” (Mário Quintana)

   

 

Sobre Josane Mary

O ato de escrever se tranformou numa extensão de mim... https://josanemary.wordpress.com
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21 respostas para Livros não mudam o mundo

  1. Antonio Ramiro Fonseca disse:

    Jô,
    Que maravilha de lição de vida. Os livros podem não mudar o mundo, mas como disse Mário Quintana, podem sim, mudar as pessoas. Este trecho do “MEVROUW JANE” levou-me a decisão de melhor analisar as pessoas da minha convivência diária e entender e aceitar as suas amarguras. Parabéns, atrevida. Tenha um bom-dia, flor do dia!
    Abraços Fraternos,
    Ramiro

    • Josane Mary disse:

      Querido Ramiro, que direi eu diante desse comentário?!
      É muita honra e emoção para que me atreva a expressá-las em palavras! Muitíssimo obrigada, com os olhos rasos d’água!
      Tenha um ótimo final de semana!
      Grande abraço e até o próximo post.

  2. Lucy disse:

    Jo, os amigos são os verdadeiros e maravilhosos amores de nossas vidas…
    realmente sem calor humano murchamos, secamos, perdemos o viço…
    cada vez mais tenho vontade de ler o seu livro… esse pequeno trecho deixou-me
    comovida…
    Querida flor, busque sempre a água do afeto para continuar linda e perfumada
    como sempre…
    Um grande beijo…

    • Josane Mary disse:

      Bom-dia, Lucy!
      Obrigada pelas lindas palavras! Eu me emocionei aqui! Que maravilha saber que sentiu mais vontade ler Mevrouw Jane.
      Ele estará, a princípio, disponível nas livrarias do ES, aqui na Holanda, e através deste blog. Espero levá-lo a outras capitais, mas isso pode demorar um certo tempinho… [autopublicar é parada dura! … mas não vou desistir].
      Assim, disponibilizei uma página aqui no blog para “reserva”. Nela, os interessados em adquiri-lo não precisarão esperar esperar esperar que ele chegue à livraria mais próxima! Este é o link: reserva https://josanemary.wordpress.com/onde-comprar/

      Grande abraço.

  3. Magnólia Moura disse:

    Josane,
    Parabéns! Não escrevo, mas amo ler e tenho grande admiração por vocês que nos fazem sonhar ou sentir a nossa realidade. Citando outra vez Mário Quintana… Os livros podem não mudar o mundo, podem sim, mudar as pessoas.
    Só em ler esse pequeno trecho, aumentou a minha vontade de ler todo o livro. Vou repetir aqui um cometário do seu amigo Druida. “quero escrever do jeito de uma mulher e não escrever de um jeito de um homem (Lya Luft); e você faz isso.

    • Josane Mary disse:

      Magnólia!
      Que alegria receber a sua visita! Aliás, para ser sincera ao que senti quando li o se comentário, confesso: minha mente exclamou o ‘pqp’! É honra demais ser comparada à Lya Luft!
      Eu acredito muito em Mevrouw Jane como sendo uma obra literária [deixemos a modéstia de lado, caso contrário, fica falso]. Porém, vê-la tocando as pessoas dessa forma, tem sido vivenciar uma experiência que eu sonhava vivenciar, e agora, vivencio.
      Muitíssimo obrigada!
      Como parar de sorrir!?
      Eu também agradeço imensamente por ter indicado o meu blog para o Antônio, foi encantador ler o comentário que ele me deixou.
      Caso queira reservar um exemplar, será uma honra autografar o seu.
      Tenha um ótimo dia e volte sempre!
      Grande abraço

  4. Rejane disse:

    Josane,

    Adorei o que li e compartilhei com o grupo do linkedin “Mulheres de Negócios”.

    Te desejo muito sucesso !
    Rejane

    • Josane Mary disse:

      Oi, Rejane! Ótima-noite!
      Muitíssimo obrigada pela visita e suporte. Que honra saber que adorou!
      Será maravilhoso se Mevrouw Jane for um dos próximos de sua lista.
      Ele estará disponível a partir de Junho, a princípio, nas livrarias do estado do Espírito Santo, aqui na Holanda, e através deste blog.
      [Espero, futuramente, tê-lo em diversas [todas] as capitais do Brasil. Contudo, quando se auto-publica, o caminho é um pouco mais longo…]

      Se desejar adquiri-lo, informo que disponibilizei uma página aqui no blog para “reserva”. Dessa forma, não precisará esperar esperar esperar até que ele chegue à livraria mais próxima.
      Caso tenha interesse, este é o link: reserva https://josanemary.wordpress.com/onde-comprar/

      Volte sempre, será sempre bem-vinda.
      Tenha um ótimo final de semana!
      Grande abraço.

  5. tais luso disse:

    Olá, Josane, como fiquei sem Internet, só vim dar um olá pra você, agradecer sua gentil visita ao meu blog e dizer que voltarei neste final de semana para conhecer seu blog.
    Um grande beijo, nova amiga!
    Tais Luso

    • Josane Mary disse:

      Oi, Tais! Ótimo sábado!
      Bom demais receber a sua visita! Obrigadíssima pelo carinho.
      Espero que goste de ler prefácio de Mevrouw Jane. Aguardo pela alegria de ler o seu comentário.
      Acabei de ler no seu blog: “Os Amantes” – intenso demais… [deixei lá o meu comentário]
      Tenha um agradável final de semana, ao lado dos seus, aí em Porto Alegre.
      Grande abraço.

  6. Mariazita disse:

    Olá, Josane
    Vim agradecer a sua visita (que já tem uns dias – não costumo proceder assim…) e conhecer o seu espaço.
    O seu blog é o que considero “de qualidade”. Gostei do que vi, embora não tenha aprofundado muito (o mesmo motivo que me levou a tardar a vinda – falta de tempo).
    Este trecho de Mevrouw Jane é muito interessante. Deixa antever um livro muito bom.
    Espero muito proximamente dispor de mais tempo para apreciar tudo aqui como merece.
    Agora vou à procura (rsrsrsss) do prefácio que vc me sugeriu que comentasse.

    Bom fim de semana. Beijinhos

  7. Magnólia Moura disse:

    Querida Josane!
    Quero sim reservar um exemplar, tenho certeza que será uma leitura que vou amar fazer, sei que já disponibilizou uma pagina para a compra, vou fazer imediatamente a reserva.
    Não tive oportunidade de ler o que meu grande amigo Antônio escreveu , sei que deve ter sido muito bonita as palavras dele.
    Ter a oportunidade de manter contato com você foi uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos dias. Um grande abraço, bom fim de semana.
    Magnólia

    • Josane Mary disse:

      Ei, Magnólia!
      Que bom vê-la por aqui novamente! E que fará a reserva. Obrigada!
      Sim, quando tiver um tempinho, leia o comentário do Antônio – emocionantíssimo!
      Muito obrigada pelo carinho!
      O mesmo para você e os seus. Grande abraço.

      • Magnólia Moura disse:

        Josane!!
        Fiquei curiosa para ler o comentário do meu amigo, onde ele postou esse comentário?
        E com certeza você receberá sempre a minha visita quando possível por aqui.
        Um grande abraço e um domingo maravilhoso.

      • Josane Mary disse:

        Bom-dia! Magnólia!
        Este é o link do comentário do Antônio [é o quinto]: https://josanemary.wordpress.com/2011/03/17/passo-a-passo/
        Há um Solzinho tímido, mas ainda é cedinho. O domingo promete se lindo; com temperatura na casa dos 17 graus Celsius – linda primvera holandesa!
        Com estou no meu templo, vejo agora um esquilinho se alimentando. Os pássaros cantam lindamente!
        Adorei receber novamente sua visita!
        Grande abraço!

  8. Josane querida!
    Grata pela tua preciosa visita!
    Teu blog é SHOW! Teus posts são maravilhosos. Parabéns!
    Quando quiseres, conheça os meus outros blogs.
    Beijos e um lindo domingo!

    • Josane Mary disse:

      Oi, Sônia! Bom-dia!
      Que bom saber que gostou. Obrigada!
      [Seu blog é muito fofo!, e seu carinho pelos animais, contagiante! Sim, visitarei os outros.]
      Curta esse domingo manso!
      Volte sempre! Grande abraço.

  9. Magnólia Moura disse:

    Oi, Josane, aqui não tenho jardim, mas sempre acordo com os pássaros cantando na minha janela, são bem-te vis, e outros que agora não recordo os nomes, amo animais inclusive tenho duas cadelinhas , uma Husk siberiano e a outra Pinscher, coloco umas gaiolinhas que vendem aqui com flores artificiais onde colocamos água com um produto açucarado na garagem para que beija- flor visitem esse meu espaço.
    Qunado não tenho nada para fazer deito na rede e vou ler, ouvir música ou simpelsmente ficar em silêncio. Um grande abraço!

  10. Joseane, vim pelo link do me blog -meio abandonado, porque não tenho escrito-e também fiquei curiosa para ler seu livro. Então você é uma brasileira que mora na Holanda? Pelo texto que li, você sente saudade dos amigos e familiares do Brasil, mas a Holanda deve ter suas peculiaridades, não é? A primavera deve ser linda… mas entendo muito bem, a falta de calor humano.
    Eu moro no Brasil, mas numa cidade onde falta calor humano e onde temos mais céu cinzento e chuva do que sol.
    Faça como eu: quando vou para Porto Alegre/RS, onde estão todos os meus familiares, aproveito cada dia, cada minuto.
    Abraços

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