Castrar o consciente

“É que, na verdade, escrever não é um puro ato mecânico, precedido de um outro, que seria um ato maior, mais importante, O ato ele pensar Ordenadamente, organizadamente, sobre um certo objeto, em cujo exercício o sujeito pensante, apropriando-se da significação mais profunda do objeto sendo pensado, termina por apreender a sua razão de ser. Termina por saber o objeto. A partir daí, então, o sujeito pensante, num desempenho puramente mecânico, escreve o que sabe e sobre o que pensou antes. Não! Não é bem assim que se são as coisas. Agora mesmo, no momento exato em que escrevo sobre isto, quer dizer, sobre as relações pensar, fazer, escrever, ler, pensamento, linguagens, realidade, experimento a solidariedade entre esses diversos momentos, a total impossibilidade de separá-los, de dicotomizá-los.
Se isto não significa que após pensar, ou enquanto penso, eu deva automaticamente escrever, isto significa, porém, que ao pensar guardo em meu corpo consciente e falante, a possibilidade de escrever da mesma forma que, ao escrever, continuo a pensar e a repensar o pensando-se como o já pensado.
Esta é uma das violências que o analfabetismo realiza – a de castrar o corpo consciente e falante de mulheres e homens, proibindo os de ler e de escrever, com o que se limitam na capacidade de, o mundo, escrever sobre a sua leitura dele, e, ao fazê-la, repensar a própria leitura. Mesmo que não zero as milenar e socialmente criadas relações entre linguagem, pensamento e realidade, o analfabetismo as mutila e se constitui num obstáculo à assunção plena da cidadania. E as mutila porque, nas culturas letradas, interdita analfabetos e analfabetas de competar o ciclo das relações entre linguagem, pensamento e realidade, ao fechar a porta, nestas relações, ao lado necessário da linguagem escrita. É preciso não esquecer que há um movimento dinâmico entre pensamento, linguagem e realidade do qual, se bem assumido, resulta uma crescente capacidade criadora de tal modo que, quanto mais vivemos integralmente esse movimento, tanto mais nos tornamos sujeitos críticos do processo de conhecer, de ensinar, de aprender, de ler, de escrever, de estudar.
No fundo, estudar, na sua significação mais profunda, envolve todas estas operações solidárias entre elas. O importante agora é deixar claro, em certo sentido, repetindo-me um pouco, que o processo de escrever que me traz à mesa, com  minha caneta especial, com  minhas folhas de papel em branco e sem linhas, condição fundamental para que eu escreva, começa antes mesmo que eu chegue à mesa, nos momentos em que atuo ou pratico ou em que sou pura reflexão em torno de objetos; continua quando pondo no papel da melhor maneira que me parece os resultados provisórios, sempre provisórios, de minhas reflexões, continuo a refletir, ao escrever aprofundando um ponto ou outro que me passará despercebido quando antes refletia sobre o objeto, no fundo sobre a prática.
É por isso que não é possível reduzir o ato de escrever a um exercício mecânico. O ato de escrever é mais complexo e mais e mais demandante do que o de pensar sem escrever.”
Trechos do Livro Professora sim, tia não cartas a quem ousa ensinar” do grande Educador e Filósofo brasileiro, Paulo Freire.

Sobre Josane Mary

O ato de escrever se tranformou numa extensão de mim... https://josanemary.wordpress.com
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2 respostas para Castrar o consciente

  1. Antonio Ramiro Fonseca disse:

    Alô Jô,

    Concordo, plenamente. Escrever não é um ato puramente mecânico. A parte mecânica se resume, apenas, na ação de gravar no papel o que se pretende escrever. Da arte de escrever constam dons e fenômenos , os quais nada tem á ver com um simples e mero “desenhar lêtras”. A escolha e o desenvolvimento do que se escreve está em nível mais elevado. É coisa da alma, é coisa abstrata e indefinida. Se assemelha muito á uma chaga, já cicatrizada, que, repentinamente, se abre. Como definir a mágica de um pintor, olhando uma paisagem , transferi-la , quase que como uma foto, para uma tela ? Tem o ato mecânico, mas jamais poderá ser puramente mecânico. Quanto ao analfabetismo, entendo que ele subtrai dos homens e das mulheres, apenas, o ato mecânico. A sensibilidade e o dom são inatos.

    Abraços Fraternos
    Ramiro

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