Carinho

[…] Assim, em menos de dez minutos, Sofia chegou ao seu destino. Ao sair do carro, foi logo sorrindo:
– Bom-dia, Pedro! Preciso de mais frutas, eu te falei!
Começou a apalpar as frutas. Queria aparentar ter algum conhecimento para selecionar as melhores. Na verdade, estava tentando ganhar tempo para contá-las. Queria dizer o número mais próximo da quantidade total de frutas que Pedro oferecia naquela manhã. Depois, continuou:
– Gostaria por favor, deixe-me ver… Umas 15 caixas destes morangos vermelhinhos, uns 10 melões, 10 dúzias desta banana amarelinha, uns 30 abacates, umas 10 dúzias de limão, umas 10 dúzias de tangerina e uns 20 cocos!
– Você veio mesmo! Não sei o que vai fazer com essa quantidade toda de frutas, mas tenho certeza que tá levando o suficiente pra alimentar um grupo bem grande! Vai fazer salada de frutas, bolo ou ponche?
– Acertou! Vou fazer todos eles! Seus palpites são muito certeiros, Pedro!
– Ah! Não sei, não. Você que tá dizendo. Sofia, se não se incomodar de sentar nesse meu banquinho aqui de madeira… É que vou arrumar suas frutas dentro da caixa de papelão.
– Estou mesmo precisando de um descanso. Seu banquinho caiu do céu! Obrigada!
– Você praticamente me deixou sem fruta. Vou terminar o dia de trabalho mais cedo.
Tal frase soou como uma sinfonia dos arcanjos aos ouvidos de Sofia:
– Acho que isso é bom, não é?!
– Sim! É bom demais! Obrigado pela preferência. Tem um supermercado novo, lá na entrada da vila, e os moradores têm comprado frutas lá. Mais conveniente. Fazem uma compra só junto com os mantimentos da casa. Só posso mesmo é ficar muito satisfeito de ver que você não precisava de nenhum mantimento do supermercado, e decidiu comprar as frutas aqui na vila mesmo. Ainda tô conquistando minha freguesia. Se Deus quiser, logo logo, os moradores vão ficar acostumados comigo. Minhas frutas são de muito boa qualidade, sem agrotóxico! – ele dava ares de orgulho.
E Sofia, que se ajeitava no banquinho:
– É mesmo? Fico mais feliz ainda! Pedro, tenho certeza que, em breve, os outros moradores também vão fazer exatamente isto. Quem vai preferir comprar frutas no supermercado, cheias de agrotóxicos!?
Pedro, que sorriu:
– É, mas muita gente não liga não, Sofia. Não enxergam a diferença. Pra eles, tanto faz. Mas já tenho umas cinco freguesas aqui na rua. Elas são bem exigentes com a qualidade das frutas. E elas têm feito propaganda. E propaganda é a alma do negócio, concorda?
– Plenamente, Pedro! Você começou a trabalhar aqui em Maruchos há pouco tempo?
– Duas semanas. Vim embora da Bahia pra cá. Tava cansado de tumulto.
– E você escolheu muito bem! Maruchos é maravilhosa! Nossa querida vila de pescadores é muito tranquila. Você já conhecia Maruchos?
– Não, primeira vez.
– Primeira vez? Foi o seu instinto que te guiou pra Maruchos, aposto!
– Não. Foi não. Um dia, lá na Bahia, muito tempo atrás, um freguês parou na minha banca de frutas porque ficou encantado de ver que o meu sabiá tava no meu ombro. Ele chegou perto de mim e disse que eu tinha um bonito sabiá-laranjeira. Eu disse que o meu era um sabiá-coca. Depois, ele comprou quase todos os abacaxis que eu tinha. Comprou muita quantidade mesmo, igual você tá comprando. Enquanto ele colocava o monte de abacaxi no carro dele, ele contou que não via a hora de cruzar a divisa da Bahia com o Espírito Santo. Queria logo chegar em casa, no paraíso dele. Disse que tava cansado da Bahia, e tava lá só de passagem! E foi daí que me perguntou se eu já tinha ouvido falar de Maruchos. Disse que, se eu conhecesse, nunca mais ia querer voltar pra Bahia. Gostei muito daquele freguês. Desde aquele dia eu pensei em Maruchos, no lugar perfeito que ele falou. E hoje, eu tô aqui, morando nele!
– Pedro, que história bonita! Você tinha quantos anos na época?
– Obrigado. Era menino ainda. Tinha uns quinze.
– Aposto que foi o sabiá que estava no seu ombro que deu origem ao seu nome!
– Ele mesmo. Meu nome de batismo é Pedro José Siqueira. Mas desde pequeno sô o Pedro Sabiá. Sempre gostei muito de passarinho.
– E por que um sabiá e não um colibri? Por exemplo.
– Não. Sô o sabiá! Você pode pegar o colibri pra você! – ele ainda sorria.
A jovem deu uma pequena gargalhada. Em seguida, exclamou:
– Vou ser a Sofia Colibri! Adorei o apelido! Obrigada por mais essa sugestão!
Ela estava há algum tempo observando a paciência e o cuidado com que Pedro colocava as frutas dentro da caixa. Ele explicou:
– Ganhei meu apelido quando tinha dez anos. Meu pai me deu um filhote de sabiá-coca, mas eu não quis a gaiola, não. Meu pai disse que, sem a gaiola, o sabiá ia embora, voar pra longe assim que crescesse. Mas eu destruí a gaiola toda. Depois de um mês, meu pai e minha mãe saíram contando pra todo mundo que eu era um menino especial, porque o sabiá não fugiu, e a história tomou perna lá na fazenda.
– Muito sábio dos seus pais! Afinal, o sabiá não fugiu, não voou, não foi mesmo?
– Isso mesmo; aquele sabiá-laranjeira foi meu primeiro e maior amigo. Viveu quase trinta anos. Bastante tempo. Sorte minha! Sempre ficou no meu ombro. Parecia um periquito! O sabiá-laranjeira é uma criaturinha dócil e tem um canto lindo!
– Isso tudo? Muito tempo! Tem muito tempo que seu sabiá morreu?
– Duas semanas.
A jovem, que não esperava ouvir tal resposta, disse cheia de tristeza:
– Oh! Pedro, sinto muito.
Por vê-lo calado, pensou em dizer: “Minhas condolências ou meus pêsames”, mas decidiu mudar o ritmo da conversa. Sorrindo, continuou:
– Mas, Pedro, eu tinha entendido você dizer que o seu sabiá era um sabiá-coca, mas agora você falou que ele era um sabiá-laranjeira? […]
trechos do romance Mevrouw Jane (Josane Mary)

Sobre Josane Mary

O ato de escrever se tranformou numa extensão de mim... https://josanemary.wordpress.com
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2 respostas para Carinho

  1. Ramiro disse:

    Olá, querida amiga Jô!

    O diálogo entre a Sofia e o Pedro Sabiá, condiz, literalmente, com o relacionamento mantido entre os antigos comerciantes e fregueses, nas pequenas comunidades e, muito especialmente, nas vilas de pescadores, onde ainda predominam o respeito e a humildade. Adorei o palavriado, a história e a sabedoria de Sofia ao desviar do assunto que traria sofrimentos ao Pedro. Lembrei-me das épocas que passava os 30 dias de férias em Meaípe.
    Parabéns, amiga! Lembranças à MEVROUW JANE. Fique com Deus, AMIGA!!!

    Abraços Fraternos,
    Ramiro

    • Josane Mary disse:

      Ei, Ramorovisky!
      Que maravilha saber que gostou, querido amigo! Elogio e tanto! Obrigadíssima!
      Eu guardo em mim, a impressão de que o Pedro Sabiá & a Sofia conquistarão muitos corações. São personagens adoráveis. Podemos facilmente nos identificar com eles [em algum momento de nossas vidas].
      Mais uma vez, obrigada pelo carinho e apoio!!!
      Grande abraço, ótima semana e até o próximo post.

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